![]() |
||||||
| Editorial |
Tema Central |
A Voz e a Vez |
(In)Formação |
Novidades |
||
| O Sal da
Língua... Étimos curiosos (I)
Não é desinteressante nem deixa de ser
útil conhecer as origens de muitas
expressões usadas no dia-a-dia, naturalmente
umas mais do que outras, que revelam verdadeiras
curiosidades, geralmente ignoradas.
A respeito de algumas dessas expressões, passo a expor o que recolhi no segundo volume de um livro de «coisas que não estão nas gramáticas e outras contra o que elas contêm», intitulado Questões de Língua Pátria, da autoria de Xavier Fernandes e impresso para as edições da Revista Ocidente, aos 26 de dezembro do ano de 1947. Uma verdadeira pérola linguística! Outros tempos. Outras vontades. BANCARROTA
Corresponde ao francês banqueroute, mas tem a
sua origem no italiano bancarrotta, ‘de banco
rotto’, ‘banco partido’.
Antigamente, na
Itália, procedia-se ao ato humilhante de
quebrar o banco ou o balcão dos comerciantes
ou cambistas falidos. Daí, a
designação generalizada.
BERA
Tirado do nome alemão do diretor duma
companhia que tinha a sede em Berlim e sucursais em
todas as mais importantes cidades do mundo e que,
aí por 1908, inundou Lisboa e Porto de pedras
falsas tão perfeitas que muita gente as
tomava por verdadeiras pedras finas. Assim se
originou a introdução do termo bera na
linguagem portuguesa, para designar qualquer coisa
falsa ou qualquer imitação mais ou
menos perfeita.
BERNARDO Como
origem deste nome e por aparente semelhança
morfológica, houve quem se lembrasse de
indicar bona e nardus, isto é, bom nardo
(planta aromática). Esta curiosidade
só subsistiu, enquanto se não
averiguou que Bernardo, Leonardo e outros nomes
próprios são de proveniência
germânica, contendo o segundo elemento comum,
hard, que significa ‘duro’, ‘forte’. Bernardo ou o
germânico Bernhardt quer, pois, dizer
«forte como um urso». Assim
também Leonardo significa, etimologicamente,
‘forte como um leão’.
BOICOTAR Este
verbo e a sua variante boicotear, que também
se emprega e aparece em dicionários,
são usados não só para exprimir
a ideia de pôr interdição a
pessoas, que, embora da mesma nacionalidade,
pertencem a determinados grupos étnicos,
religiosos ou económicos, mas ainda – e este
é o caso mais corrente – para significar o
fazer guerra comercial a certos produtos ou
mercadorias, chamando-se boicotagem ao respectivo
ato ou efeito.
A parte curiosa do vocábulo está na sua origem, o apelido dum capitão e rico proprietário irlandês, James Boycott, cuja demasiada exigência ou severidade provocou uma recusa geral de trabalhar por sua conta ou de com ele efetuar qualquer espécie de transações. Esta atitude do povo forçou Boycott a abandonar a gerência de vastíssimas propriedades, facto este sucedido em 1880. BULA Este
nosso vocábulo, como o castelhano bula, o
francês bulle e o italiano bolla, que, por
outros lados, deu ainda, na nossa língua, as
palavras bola e bolha, embora para estas, segundo
alguns autores, tivessem servido de ponte de
passagem outras línguas, nomeadamente o
catalão e o castelhano, o que, todavia,
não obsta a que os três
vocábulos, bula, bola e bolha, tenham sido
considerados como formas divergentes que derivam do
mesmo nome latino, bulla.
A parte mais curiosa do vocábulo não se encontra, porém, no seu étimo, mas na respetiva evolução semântica. Entre os antigos Romanos, bulla era um distintivo ornamental, constituído por uma bola metálica que os jovens nobres usavam ao peito, suspensa do pescoço. Afirma-se que este ornamento já era usado pelos Egípcios, mas conta Plínio Segundo, chamado o Velho, célebre historiador romano (23/24-79 d. C.), que foi Tarquínio, o Antigo, quinto rei de Roma (616-579 a. C.), o primeiro que deu uma bulla de ouro a um filho de catorze anos, premiando-lhe assim um ato de coragem. Mais tarde, o mesmo nome foi dado a certos documentos referentes a príncipes e que continham, ligado e suspenso, um selo de ouro, prata ou chumbo, tal como as mencionadas bulas penduradas ao pescoço dos jovens romanos. Parece que a mais célebre da Idade Média foi a bula de ouro de Carlos IV da Alemanha, a qual era como um símbolo da forma de eleição durante o Império. Certo é que, modernamente, o vocábulo passou a empregar-se para designar letra ou carta do Papa, expedida pela chancelaria apostólica com ordens, inspirações ou benefícios, não devendo as bulas confundir-se com as breves, que são outra espécie de documentos pontifícios. CABALA
Embora originado do antigo hebraico kabbala,
vocábulo que designava certo ensino oculto
mantido por tradição, para alguns
autores a palavra resultou da junção das
iniciais de Clifford, Aschley, Buckingham, Arlington,
Landerdale, que eram os nomes dos membros do
célebre ministério inglês de
cabala (1670).
CADÁVER
Formou-se das três sílabas iniciais das
três palavras latinas: caro data vermibus,
expressão que, em português, quer dizer:
‘carne dada aos vermes’.
A ideia foi engenhosa, mas disso não passou. Cadáver tem outra derivação, pois a sua raiz é a do verbo latino cadere, ‘cair’, ‘tombar’, mas veio directamente de cadáver, -eris, nome neutro. CALENDAS
Embora haja um ou outro exemplo do emprego deste
nome no singular, certo é que prevalece a
forma pluralizada, como já sucedia no
correspondente latim, em que o nome calendae (ou
kalendae) se usava sempre no plural.
O vocábulo, que, na nossa língua, tem como palavras da mesma família calendar, calendário e calendarista, revela-nos a raiz do verbo calo, -as, -are, ‘chamar’, ‘convocar’, a que corresponde o grego kalein, com o mesmo significado. Entre os antigos Romanos, Calendas, Nonas e Idos eram os três dias notáveis que marcavam a divisão de cada mês (Calendas, sempre a 1; Nonas, a 5 ou a 7; Idos, a 13 ou a 15). No início do mês, logo no primeiro dia, costumava-se chamar ou convocar o povo para se lhe anunciarem as festas e o dia em que haviam de cair as Nonas, o que explica a designação de Calendas. O nome internacionalizou-se e, em português, usa-se muito em expressões como «nas calendas gregas», «para as calendas gregas», etc., para significar simplesmente ‘nunca’, visto que os Gregos jamais tiveram Calendas. Também os Franceses dizem, por exemplo, renvoyer quelqu’un aux calendes grecques, querendo significar apenas ‘adiar para uma época que nunca chegará’. O vocábulo é, pois, curioso não só na relacionação do étimo com o significado, mas, sobretudo, no sentido que tomou, nas línguas românicas, junto ao adjetivo gregas. CARNAVAL
É engenhosa a proveniência dada,
noutros tempos, a este vocábulo, apresentado
como resultante da união de dois outros
latinos (caro, carnis, ‘carne’, e vale, ‘adeus’)
cuja tradução se dizia ser: ‘adeus,
ó carne’.
Generalizou-se muito a admissão deste suposto étimo, que aparece registado em várias obras; hoje, porém, está provado que foi mal fundada fantasia de quem o inventou. Entre vários étimos que têm sido atribuídos ao vocábulo, é mais aceitável o italiano carnovale, tirado do baixo latim carnelevamen (isto é, do latim bárbaro, o usado nos documentos públicos, autos de partilhas, testamentos… pelos tabeliães e notários, desde o século IX até ao século XII), do acusativo carnem e do infinitivo levare, significando literalmente ‘abstenção de carne’. CHANTAGEM Esta forma, tomada como aportuguesamento do francês chantage, exprime a ideia de extorquir dinheiro a alguém para evitar difamação ou a revelação de alguma coisa mais ou menos escandalosa. Ignora-se, porém, geralmente, a origem histórica da expressão, que não deixa de ser curiosa, como se vai ver. Chantage derivou-se de chanter, ‘cantar’. Entre os antigos Franceses, havia o costume de fazer cantar alguém à sobremesa de certas refeições, mas sucedia muitas vezes que, por timidez ou por qualquer outro motivo, a pessoa indicada se recusava a isso, embora acabasse por aceder depois de muitas instâncias. Assim se originou a antiga expressão faire chanter quelqu’un, empregada com o sentido de ‘obrigar alguém a fazer, de boa vontade, o que não quer’. Daqui e por ampliação semântica, veio a criação e o uso do vocábulo chantage, que, já entre os Franceses, significa moyen déloyal de tirer de l’argent de quelqu’un en le menaçant de le compromettre dans sa réputation, s’il ne consent à payer le silence. CONCLAVE
Na segunda metade do século XIII, reunidos os
cardeais em Viterbo para escolherem o sucessor de
Clemente IV, assim estiveram dois anos, findos os
quais se preparavam para abandonar a cidade, por lhes
parecer que não chegavam a acordo na escolha do
novo Papa.
Alguém sugeriu então que o povo fechasse as portas à chave, anunciando aos cardeais que não sairiam, sem que procedessem à eleição, o que efetivamente sucedeu logo em seguida. Pouco depois, em 1274, o segundo concílio geral de Lião estabeleceu e regulou o conclave para posteriores eleições papais, sendo uma das cláusulas o encerramento dos cardeais em compartimentos separados e fechados à chave, durante o ato eleitoral. É esta curiosa explicação que justifica o nome, tirado do latim conclaue, propriamente ‘reunião de indivíduos fechados à chave’: de cum, ‘com’, e de clauis, ‘chave’. CURIOSIDADE e CURIOSO
Ao contrário do que foi feito por diversos
autores, é erro relacionar etimologicamente
qualquer destes nomes com o vocábulo
cúria, divisão de antigas tribos
romanas. Disse-se que o curião ou chefe de cada
cúria era o indivíduo encarregado de
velar pelos interesses desta e que, mais tarde, se
chamou curioso (em latim, curiosus) àquele que
se misturava nos grupos da sua cúria para saber
novidades.
Esta explicação pode ser engenhosa e mesmo parcialmente verdadeira, mas não deixa de ser um pouco fantasista, porquanto a Filologia provou, já que a raiz dos nomes latinos curiositas e curiosus não é a mesma do substantivo cúria, ainda que ilustres filólogos se tenham manifestado em sentido contrário, aceitando a aproximação etimológica dos três vocábulos. Mas não. Cúria (em latim, curia, em vez de co-uiria) e as palavras curial, curialismo, curião, decurião, centurião, etc., têm a raiz comum de uir, uiri, ‘homem forte’, correspondente ao sânscrito vira-s, ‘herói’. Curiosidade e curioso foram tirados respetivamente de curiositate(m) e de curiosu(m), aquele derivado deste e ambos do primitivo cura, curae, ‘cuidado’, que nada tem que ver com a raiz (uir-) e que produziu, tanto em latim como em português, numerosas palavras da mesma família. Assim, curiosidade é a qualidade considerada em abstrato, própria de quem é curioso e, por sua vez, este adjetivo significa propriamente ou, melhor, etimologicamente, cuidadoso. O significado corrente e outros que o vocábulo tomou vieram-lhe por ampliação semântica. Nada há, enfim, nele que o faça relacionar com as antigas cúrias romanas. Jorge Moranguinho
(Docente no AE Rodrigues de Freitas) |
||||||
|
||||||